MOURINHO DA CULTURA

Tuesday, October 09, 2007

(Nova) Entrevista com José Vieira Mendes




Depois de, há quase 2 anos, eu e o Miguel Baptista termos entrevistado o editor-chefe da PREMIERE portuguesa, na altura a celebrar o seu 6º ano de existência, tudo mudou entretanto, e Outubro conhecerá a última edição da PREMIERE portuguesa, seguindo o destino da sua congénere americana. Sempre fui um leitor assíduo da revista, desde o primeiro número, tendo-os todos devidamente arrumados e organizados no quarto. Mais do que discutir a qualidade da revista, interessava-me perceber como é que um projecto neste momento único no mercado em Portugal, deixou de ter espaço para existir, quando o seu próprio editor manifestava grande contentamento pelo crescimento da PREMIERE. Nada melhor, portanto, do que voltar a dar a palavra ao homem que deu início a tudo e agora viu, a um mês da celebração do 8º aniversário, o seu projecto chegar prematuramente ao fim (tal como anteriormente, a entrevista foi conduzida por e-mail e segue transcrita na íntegra).



Recordando por momentos o seu blog (Mourinho da Cultura), é caso para dizer que nem o maior treinador do mundo, nem a maior (quanto mais não seja porque única) revista de cinema portuguesa estão a salvo. E tal como os adeptos do Chelsea, também os cinéfilos portugueses ficam a perder. Como se explica o final repentino da PREMIERE?
Isto são várias perguntas ao mesmo tempo que merecem várias respostas. Antes de responder objectivamente à vossa pergunta sobre o final da PREMIERE, deixem-me falar um pouco da razão do blogue. Chama-se Mourinho da Cultura, porque sou um grande admirador do ‘estilo Mourinho’, ou seja de um espírito de liderança, combativo e empreendedor. Mesmo partindo muitas vezes de recursos escassos, há que atingir grandes objectivos. Foi o que aconteceu com a PREMIERE. É um estilo com o qual me identifico sem querer imitar ninguém, porque aliás trabalho numa área completamente diferente: a cultura e em particular o cinema. Uma área onde às vezes também fazia falta uma combinação de pragmatismo e bom senso, até porque estamos a trabalhar num mercado intelectual e que não envolve os milhões do futebol. Mas onde existem também muitos craques, por vezes substimados. Somos ainda, (eu e o Mourinho, claro) praticamente da mesma idade e da mesma geração de quarentões, que sofre dos mesmos males, como por exemplo uma profunda insatisfação em relação ao mundo que nos rodeia e uma necessidade absoluta de ganhar sempre. Não gosto de perder nem a feijões. Apesar de tudo acho que não perdi com a experiência de oito anos da PREMIERE. Acho que até saio vencedor e com necessidade de mudar. Sou também um grande adepto de futebol e do Chelsea (já assisti a um jogo em Stamford Bridge), que tem jogadores extraordinários, que não passaram de ‘belos a bestas’ só pela saída do Mourinho. É preciso ter cuidado, ser justo e não como os comentadores da SporTV, que no jogo com ManUnited, parecia que tinham mudado de clube. O blogue existe essencialmente para eu colocar algum material que não cabia na PREMIERE, temas de reflexão e estudo sobre cinema, televisão, media e cultura (que desenvolvi na minha pós-graduação) e, para partilhar algumas poesias que gosto muito e com as quais me identifico ou que refletem o meu estado de alma no momento em que as li. Leio muita poesia. Gosto muito de poesia. Normalmente aquele ritmo das palavras até me ajuda a adormecer e a exercitar o meu discurso oral e jornalístico.

Apesar de tudo o Mourinho, está mais que salvo! Quanto mais não seja com os milhões de euros de compensação que arrecadou e que lhe dão imensa liberdade para fazer o que bem lhe apetecer, ao passo que eu por a PREMIERE fechar, recebo uma pequena quantia para me aguentar que me dá apenas margem para lutar por outro projecto, obviamente na minha área de trabalho. Mas não posso esperar muito tempo porque tenho encargos, três filhas em idades escolares, e por isso tenho que ir à luta….à Mourinho. É evidente que os cinéfilos ficam a perder a PREMIERE era a única revista de cinema no mercado e abriu um buraco embora possa ser complementado por outras ‘plataformas’. Há mais de trinta anos que uma revista de cinema não se aguentava tanto tempo no mercado. Poderá haver outras razões, mas o final repentino da PREMIERE, explica-se essencialmente pelo facto de a Hachette Filipacchi (agora Lagardère Global Media), sair de Portugal, vender os dois títulos mais apetecíveis à RBA Editores (Elle e Ragazza) e a PREMIERE que servia um nicho de mercado correspondente a uma circulação de 18.000 exemplares e quase 16.000 vendas, acham que não é rentável para os objectivos da companhia. Isto até me faz ‘doer o coração’, quando consultei ontem os dados da APCT, relativos ao ultimo trimestre e vi publicações generalistas e económicas a cairem de vendas e abaixo da linha de água, comparado com a PREMIERE que é uma revista especializada. É dificil pensar que só ao fim de oito anos de publicação é que deram conta de que a PREMIERE não dava lucro, mesmo que fosse integrada numa estratégia de grupo editorial. Enfim que dizer, haverá outras razões mas não quero, nem gosto de entrar em especulações…

Já existiam indícios que levassem a suspeitar deste desfecho, como por exemplo o fecho da versão americana impressa?
O fecho da PREMIERE (EUA), reflectiu dalgum modo essa pouca apetência e a estratégia actual da companhia para os nichos de mercado e para as publicações em papel. A edição online da PREMIERE (EUA), mantêm-se muito activa. De qualquer modo e sem adeantar muito não se esperam boas notícias da PREMIERE (França), a da edição-mãe e até de outras edições do grupo. Veremos! Na altura do fecho da PREMIERE (EUA), em Maio, defendi a minha dama se se recordam num editorial, para acalmar os rumores e incentivar os anunciantes. Até recebi os parabéns da minha Directora Geral. Portanto confesso que não estava à espera deste desfecho, embora dado o ambiente geral de fusões e movimentações em termos de grupos editoriais, até já tivesse pensado na hipótese de sermos vendidos a outro grupo o que acabou por acontecer. Só que a PREMIERE, talvez não tivesse sido valorizada o suficiente para se tornar apetecível e por isso ficou fora do pacote. O mercado online também ainda não tem expressão suficiente em Portugal, para gerar receitas publicitárias. Agora estamos a passar por esta loucura das publicações gratuitas, que é quase uma espécie de autofagia dos proprios grupos editoriais. A imprensa escrita parece curiosamente estar a como que a suicidar-se.

Terão a proliferação de informação na Internet, os blogs e tudo o resto afectado directamente a qualidade e as vendas de projectos como a PREMIERE? Acha que o futuro deste tipo de projectos tente para publicações digitais?
O futuro creio eu, está na diversidade de oferta a nível das várias plataformas (inclusive as audiovisuais), conciliando em primeira instância, o papel com a internet. Mesmo em termos ambientais hoje já existe a reciclagem e não é necessário abater mais árvores. Tenho a certeza que não é uma questão de concorrência entre o papel e o digital, mas uma questão de coexistência. Há é que talvez repensar todo o negócio da edição e produção de informação seja ela de cinema ou outra qualquer.

Depois de todos estes números, está de consciência tranquila relativamente ao trabalho feito? Como reage a certos comentários de que a PREMIERE estava a perder alguma qualidade nos últimos tempos?
Estou absolutamente de consciência tranquila. A PREMIERE era a revista possível de se fazer, tendo em conta as condicionantes internas e as de mercado. Como no Chelsea….não é possivel fazer omoletes sem ovos…. Não concordo obviamente que a PREMIERE estivesse a perder qualidade nos últimos tempos. Isto porque foi introduzido sangue novo e muita criatividade de novos jornalistas que começaram a ler a PREMIERE ainda adolescentes e por mérito próprio, isto é mandaram trabalho para a redacção, passaram de meros leitores a colaboradores: Nuno Antunes, Basílio Martins, Bruno Ramos, David Mariano, Francisco Silva, Sérgio Dias Branco, Bernardo Sena, Tiago Pimentel. Marco Oliveira. Lançámos novos valores da escrita sobre cinema. Em linguagem de marketing tentamos com isso aproximarmo-nos mais do nosso público-alvo, conciliando a juventude com a expêriencia de outros colaboradores já veteranos e conhecidos. Mas é sempre difícil agradar a gregos e a troianos. E não basta dizer que a PREMIERE perdeu qualidade…é preciso dizer porquê….sempre respondi a todas as críticas e emails que me enviavam e as vezes até perdia demasiado tempo com isso….por falar em criatividade vejam como a revista era complementada por um excelente blogue: premiere-portugal.blogspot.com

De que mais se orgulha de ter conquistado ao longo do percurso da revista?
Orgulho-me principalmente da fidelidade dos leitores da PREMIERE. E dos muitos comentários feitos no blogue pelos leitores quando foi anunciada a descontinuidade da PREMIERE. Fiquei muito emocionado com certos comentários e isso fez-me muito bem em termos de auto-confiança, numa altura obviamente crítica da minha vida profissional.

E acha que ficou algo por concretizar?
Ficou por concretizar a tal estratégia multiplataforma (revista+internet+radio+televisão), que eu andava planear. Fiz uma pós-graduação em Produção de Televisão no ISCSP, na minha universidade, para alargar o meu campo de conhecimentos e desenvolver projectos nessa área. Gostava muito de fazer um bom programa de televisão sobre cinema…

E agora a inevitável pergunta: projectos para futuro?
Projectos tenho muitos…mal de mim se não os tivesse. E se não os concretizei com a PREMIERE, vou concretizá-los de outra forma qualquer porque sou teimoso e determinado e não tenho feito para ficar sentado à espera que me batam à porta ou do fundo desemprego. Ando desde que fechamos a última edição a mexer-me e a fazer contactos….quando houver novidades digo…pode ser?

Aqui estão as palavras de José Vieira Mendes, certamente as últimas que aqui nos deixou enquanto editor da PREMIERE. Pessoalmente, fico então à espera de novidades, e que elas digam respeito a esse programa de televisão que em minha opinião faz também muita falta ao panorama televisivo português. Para finalizar, nunca é demais realçar a extrema simpatia e cortesia de José Vieira Mendes, sempre disponível para as respostas e para contribuir com o que quer que fosse, e agradecer estes quase 8 anos de tentativa de fazer chegar, mensalmente, o cinema às bancas nacionais. Aqui fica, cortesia do mesmo, a última capa da PREMIERE...



Paulo Costa

3 Comments:

Blogger mariaines said...

Mourinho da cultura, ficamos à espera do seu programa de televisão e que tenha sorte nos novos projectos.

1:34 AM  
Blogger José Vieira Mendes said...

A sorte é uma ilusão....como o Mourinho só conheço um caminho...o do trabalho, esforço e determinação...e também da diversão...não é por acaso que durante oito anos fui pago, para ver filmes, escrever sobre eles, ir aos festivais...e ainda dei muitas boleias....
Aposto que a mariaines vai ser das primeiras pessoas a estar sentada à frente da televisão para ver o meu programa e até a gravá-lo para a posteridade.....

So long....

2:33 AM  
Blogger Paulo said...

Não podia deixar de passar por cá e agradecer a disponibilidade para a entrevista. Espero em breve poder repeti-la, sobre um outro projecto.

10:42 AM  

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